A eterna campeã da São Silvestre e sua mania de ter fé na vida

A trajetória da ex-boia-fria que fez da corrida a oportunidade de realizar seus sonhos.
Montagem com duas imagens de Maria Zeferina Baldaia, uma em um pódio após premiação (esq.) e outra mais atual (dir).
Maria Zeferina Baldaia, a eterna campeã da Corrida de São Silvestre.

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A história da atleta mineira Maria Zeferina Baldaia parece ter saído de um dos clássicos sucessos da MPB.  Assim como na canção eternizada em 1978 por Milton Nascimento, a trajetória dessa Maria está repleta de gana, suor, sonho e fé na vida…

Ainda pequena, Maria Zeferina deixou a cidade natal (Nova Módica-MG) em direção a Sertãozinho, no interior de São Paulo, onde a família fora tentar a vida na lavoura da cana.

Terceira filha de nove irmãos, ela começou bem cedo a encarar a dura rotina de trabalho na roça e a responsabilidade de ajudar a cuidar dos irmãos mais novos.

Tenho um carinho muito grande por Sertãozinho. Foi a cidade que abraçou a minha família. Moro lá até hoje.

Maria Zeferina: a corrida e a esperança de uma vida melhor

Imagem de Maria Zeferina Baldaia no pódio da São Silvestre de 2023, sorrindo e levantando uma garrada de espumante.
Maria Zeferina se aposentou em 2023, aos 50 anos, recebendo homenagem no pódio da São Silvestre. (Foto: divulgação).

A corrida entrou na vida de Maria Zeferina de maneira inesperada. A menina, então com 12 anos, venceu uma “prova gincana” promovida pelo grupo de jovens da Igreja Bom Jesus da Lapa, no bairro Alvorada, onde a família morava.

Foram os primeiros 3 quilômetros e 200 metros de superação: sandália deixada ao lado, barra da calça jeans dobrada e, descalça, conquistou não só a primeira vitória, como também a atenção de um treinador de atletas amadores da região.

Antenhos Augusto da Cruz, conhecido por Pezão, convenceu os pais de Maria a deixá-la participar de provas por toda a região. 

Até os 18 anos, Maria Zeferina participou de diversas competições, na maioria das vezes descalça, por ainda não ter qualquer apoio financeiro para se dedicar ao esporte – ainda dividia o seu tempo entre os treinos noturnos e o trabalho na lavoura.

Aos 18 anos, Maria Zeferina Baldaia quase largou tudo. Grávida do único filho Michael Jordan (homenagem ao seu ídolo do basquete) – ela se viu sozinha, já que o namorado não quis assumir a criança.

Nesse período de grandes dificuldades, a mineira deixou os canaviais e os treinos para trabalhar como doméstica, babá e auxiliar de produção. 

Mas ela continuou com o seu sonho. Cinco meses depois de ter o bebê, já voltou a treinar com ainda mais vontade.

Eu sempre pensei em um dia ganhar uma prova grande para poder ajudar a minha família. Principalmente ganhar um carro para ajudar minha mãe a carregar o meu irmão especial, o Fabiano.

A vitória de Curitiba e o início do seu maior sonho 

Com a vitória na Maratona de Curitiba de 2000 vieram novos patrocínios.  (Foto: reprodução do Youtube).
Com a vitória na Maratona de Curitiba de 2000 vieram novos patrocínios. (Foto: reprodução do Youtube).

O ano de 2000 representou a virada da vida de Maria Zeferina. Nessa época, ela foi morar em Ribeirão Preto, onde conseguira o seu primeiro patrocínio (da Secretaria de Esportes de Ribeirão Preto).

No fim do mesmo ano, Maria Zeferina venceu a IV Maratona Ecológica Internacional de Curitiba, prova que trouxe outros patrocinadores para continuar a buscar do seu maior sonho: chegar ao pódio da Corrida Internacional de São Silvestre.

Mas a vitória de Curitiba veio de forma inusitada. Baldaia fazia a segunda maratona, largou fora do pelotão de elite, e só percebeu que estava liderando a prova nos momentos finais da competição. 

Fiquei sabendo que estava na frente quando alcancei a Marizete e a Ilda. Elas que me falaram que eu estava liderando a prova.

2001: um ano de perdas e de muitas vitórias

Maria Zeferina vence as duas principais provas em 2001: Volta da Pampulha e a São Silvestre. (Foto: divulgação).
Maria Zeferina vence as duas principais provas em 2001: Volta da Pampulha e a São Silvestre. (Foto: divulgação).

Se pensarmos em resultados, o ano de 2001 pode ser considerado o auge da carreira de Maria Zeferina Baldaia. Naquele ano, a atleta venceu 16 das 31 provas que disputou.

Mas foram duas vitórias contundentes que fixaram, de uma vez por todas, o nome de Maria Zeferina entre as grandes corredoras do Brasil: a III Volta Internacional da Pampulha e a 77ª Corrida Internacional de São Silvestre.

Pouco antes da Volta da Pampulha, Maria Zeferina viveu um dos momentos mais difíceis da carreira:

Clique e ouça o depoimento de Maria Zeferina:

A vitória da São Silvestre e a consagração

Maria Zeferina Baldaia: a vitória da São Silvestre e o seu maior sonho realizado.

Desde bem pequena, Maria Zeferina acompanhava pela TV a Corrida de São Silvestre e as vitórias da atleta olímpica portuguesa Rosa Mota, maior campeã da prova paulistana com  seis conquistas consecutivas (entre 1981 e 1986).

Em 2000, Maria Zeferina estreiou na São Silvestre e ficou em 7º lugar na classificação geral. No ano seguinte, apesar dos bons resultados da temporada, Maria Zeferina recorda que a imprensa, na época, não a considerava como favorita na prova. 

Algumas reportagens, inclusive, diziam que ela não tinha chance nem de ficar entre as cinco primeiras.

Sempre tive o sonho de correr como a Rosa Mota e subir no pódio da São Silvestre.

Clique e ouça o depoimento de Maria Zeferina:

Pódio – 77ª Corrida Internacional de São Silvestre 

1. Maria Zeferina Baldaia (Brasil) – Tempo: 52m12s
2. Margaret Okayo (Quênia) – Tempo: 52m23s
3. Márcia Narloch (Brasil) – Tempo: 53m07s
4. Adriana de Souza (Brasil) – Tempo: 53m41s
5. Selma dos Reis (Brasil) – Tempo: 53m57s

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